sexta-feira, 30 de agosto de 2013

four.


três da manhã, saio do conforto da cama para enfrentar os monstros que me aterrorizam. Deitada, entregue ao vazio do escuro, surgem maiores, com dentes mais afiados e rugidos mais altos: vou-me defendendo como posso. 
Hoje consigo ver todas as criaturas que vivem no meu quarto, saíram em parada, saudação. Recuo um ano no tempo e recordo sentimentos que já tinha esquecido.. volto ao medo, à espera, ao desconhecido. No palco do amor, só os mais persistentes acabam por conhecer os bastidores. Por trás do coração quente e dos olhos ternurentos, residem os apertos, as aflições, as discussões, os contra a parede, os "amanhã não vou", os "deixa-me em paz". Dizem que os bastidores fazem a peça, hoje permitam-me que discorde. Não temos que passar pela dor para conhecer a felicidade. Fodam-se os guiões e os ensaios. Hoje não quero saber das didascálias. Tirem-me o buraco que trago no peito, deixem-me fugir desta realidade. Abram-se as cortinas: deixem o espetáculo continuar. 


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

three.

Dá que falar, a trigonometria da vida. Rotações de 180º, tangentes e eixos vandalizados. Num dia somos cateto oposto, no outro adjacente. Nunca temos realmente noção do que somos, vivemos num mundo enigmático de perspectivas. 
Sempre achei que para ti não era muito. E tu sempre soubeste que para mim eras tudo. Engraçado olhar para trás. Em tom de brincadeira, dizemos ter história para contar aos netos. Tantas vezes que peguei na borracha e tentei apagar-te das músicas, dos poemas, das ruas da cidade. Era um horror, tu dentro de tudo o que tem vida. De certa forma, nunca deixaste de ficar. Tive momentos maus, quantas as vezes apetecia ir embora com as nuvens cinzentas na minha janela. Nunca soubeste essa parte, pois não? Aprendi com o meu pai, como não deixar transparecer aquele novelo de dor que trazemos no coração. Felizmente, aprendi com os melhores. Mostrar dor, acaba por atrair dor e eu não queria mais, só queria que acabasse, que fosse embora. Nunca desejei que fosses embora, no entanto. Nunca me foi permitida a manobra de marcha-atrás. "Não foges disto, não recuas, não esqueces, mas também não te deixamos ir em frente. Ficas aí, ao frio, dedos e lábios roxos, coração duro como pedra." 
Fez ontem 5 meses. Chovia imenso, pedras na janela, jardins arruinados.  Não sei bem, acho que nunca vou saber, o que te levou àquelas palavras, naquele dia. Trouxeste a Primavera contigo. Estava atrasada, teimava em não vir. Gosto da Primavera que me trazes, todos os dias. Gosto do teu sentido contrário. Gosto que sejas imprevisível. Não gosto do tempo que nos separou, gosto do tempo que nos junta. 
Há coisas que o coração não suporta sozinho. Eu tenho o teu amor nas veias, nos pulmões, nos músculos, no corpo todo. Gosto de dizer que estou permanentemente envenenada. Sempre gostei mais de dar do que de receber, durante muito tempo dei-te mais do que conseguias ver. Agora estás a retribuir tudo, a dobrar, a triplicar. Que bom é, tu dentro de tudo o que tem vida.




sexta-feira, 15 de março de 2013

two.




Voltar para ontem, para o parque, para ti. Há muito que conheço o conceito de felicidade temporária, há muito que sei que és como um bom filme: eterno enquanto dura e uma maré de desalento, saudade, falta, quando acaba. O frio que está lá fora faz-se sentir cá dentro, e destas temperaturas não há aquecedor, cobertor ou qualquer outra solução que me salve. Se há coisas que não nos ensinam na escola, resistir a estes invernos é uma delas. Ainda não aprendi a lidar com as tuas temperaturas. Ainda não sei curar febres ou dedos congelados. Tão quente contigo. Tanto frio sem ti.